Antagonismos
A palavra da vez é Antagonismo.
Nunca, na minha vida pregressa, os sentimentos, pensamentos e vivências foram tão antagônicos.
Antagonismos em excesso podem deixar uma pessoa louca.
Eu sou meio louca.
Graças a Deus.
Nunca neguei.
E acho maravilhoso que assim seja porque pessoas sãs (se é que elas existem) são muito chatas.
Gosto de ter conflitos e poder pensar neles e resolver eles.
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Quer dizer, alguns conflitos eu gosto.
Pra outros, o que eu posso dizer?
Em todas as histórias existem uma bruxa e uma princesa.
Assim como na minha eu sou princesa, na de outras pessoas eu sou a bruxa.
E eu estou aprendendo a aceitar isso como uma das Verdades Absolutas do Universo.
Sempre existirão dois lados da históris, por mais desagradável que isso possa vir a ser...
Mas, enfim...
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Vamos aos exemplos...
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Quando comecei a escrever aqui (lá), meu barato era fazer uma espécie de diário sobre meus amores. E um pouco sobre moscas, mosquitos, baratas e amigos que enfeitam e floreiam a minha vida e as minhas aventuras.
Mas hoje, tudo é diferente.
Nesse momento eu não amo homem nenhum, exceto meu cachorro (que nem pode ser considerado um homem, coitado).
Meus últimos relacionamentos foram conturbados.
Um, ao extremo, sobre o qual eu não quero escrever porque existem muitas coisas ainda não ditas, não digeridas, que muita gente sabe de muita coisa e não sabe nada, que me faz mal lembrar agora. Que eu vivi sozinha. Que mudou muita coisa na minha vida.
Outro, não chegou a ir a lugar nenhum porque existia muito medo, era muito cedo, ficou muito no meio de questões pessoais que eu não havia resolvido ainda na minha cabeça. E que nem posso afirmar que já resolvi realmente.
Depois, veio aquele frio na espinha, aquela taquicardia, aquele afã de estar junto, a descoberta de estar viva ainda de novo. Mas também não era a hora ainda.
Um deixou muita mágoa, outro uma amizade grande, outro uma saudade enorme.
Amor é uma coisa difícil.
Ainda mais pra pessoas como eu que se relacionam sozinhas. Que vêem um brinquedo na loja e resolvem fazer de quase tudo para ter aquele brinquedo, mesmo que ele não dê muita bola para ela. Essas pessoas acreditam que, uma vez que o brinquedo esteja em seu poder, ele vai gostar dela. O que nem sempre acaba acontecendo.
Existem outras coisas nesse meio também.
Pessoas que, assim como eu, procuram tanto, tentam tanto, se dão tanto e recebem tão pouco que acabam acumulando um excesso de carência, insegurança, possessividade que, sim, assustam os objetos de desejo.
Que não acham vergonhoso amar outra pessoa e declarar isso ao objeto de desejo e a todos os conhecidos que ela tem no mundo.
Por mais surreal que isso pareça, existem muitas pessoas assim, e essas pessoas, com o passar do tempo e das decepções, vão ficando mais duras, mais carentes e mais inseguras. Aí, resolvem que o Grande Barato é não se envolver com ninguém porque assim elas não vão se machucar, não vão precisar de band-aids, pontes de safena... Aí perdem chances. Perdem coisas grandes. Bacanas. Perdem o colhão de cair de cabeça no que elas mais querem na vida...
O que eu acho uma pena...
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De qualquer forma, com a chegada de um elemento mais importante que qualquer homem que possa passar pela minha vida, mudaram também critérios, responsabilidades, cuidados, condutas, vontades e uma série de coisas que me fazem achar mais engraçadinho ficar sozinha mesmo que sair por me entregando a quem não quer e depois ter que ficar remendando pedaços na encolha, já que agora eu não posso mais cair. Nunca mais. Um elemento que me faz achar mais engraçadinho ficar na minha ao invés de camuflar insatisfações tendo outras insatisfações ou apenas prazeres instantâneos.
Resolvi me meter apenas com o que valha realmente a pena.
Abdiquei da busca.
(Ainda que momentâneamente)
Vinde a mim as criançinhas...
(De preferência maiores de idade)
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An-ta-go-nis-mos.
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Apesar de querer muito alguém do meu lado, de achar que eu mereço, blábláblá, também inventei eu desculpas para o passar do tempo e das decepções, e ficar mais dura, mais carente e mais insegura. Resolvendo que o Grande Barato é não me envolver com ninguém porque assim eu não vou se machucar, não vou precisar de band-aids, pontes de safena...
E perder chances. Perdem coisas grandes. Bacanas. Perder o colhão de cair de cabeça no que eu mais quero na vida...
Ter vergonha de amar as pessoas e espalhar aos quatro ventos.
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Ainda que eu saiba, no fundo do fundo do fundo, que isso é apenas um Barato que não é realmente permanente...
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Acadêmicamente, tudo vai bem, obrigada.
Apesar de estar tendo problemas porque eu só tenho matérias chatas esse semestre, porque acordar cedo é sinistro e eu odeio e do sacrifício que eu faço para ir à faculdade ser extremamente desgastante fisicamente...
Apesar deu não ter certeza ainda se era isso que eu realmente queria estudar...
Mas isso, eu já descobri que não vou ter certeza nunca.
Porque, na verdade, a sede de aprender é tanta que a vontade era estudar várias coisas ao mesmo tempo.
Gostando ou não disso tudo, certa ou não disso tudo, preciso terminar isso tudo para provar a mim mesma que eu posso, sim, terminar isso com louvor.
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Profissionalmente, a luta.
Um lado meu acha um absurdo de outro planeta sair da minha casa, ralar feito uma condenada para ganhar uma miséria que eu vou usar para pagar alguém para fazer o meu trabalho principal nessa vida: cuidar da minha filha.
Isso dá nó na minha cabeça.
Mas é invitável a partir do momento em que eu preciso, sim, de dinheiro para dar a ela uma vida com tudo que há de melhor, pagando eu mesma por isso.
Tem outro lado que implica furiosamente com essa coisa de seleção, entrevistas e currículos. Acho uma coisa absurda resolver se alguém vai ser competente ou não no que se propõe a fazer baseado num pedaço de papel ou num processo de entrevistas e dinâmicas para o qual ela foi (na maioria das vezes), treinada e destreinada para dizer ou fazer ou agir ou vestir.
Essa minha implicância me freia no que diz respeito a aceitar que essa regra existe e que eu vou ter me submeter a ela se quiser que a minha filha tenha tudo que há de melhor no mundo, pagando eu mesma por isso.
Lutando contra a implicância veementemente, no momento.
Começando a me submeter.
E não gostando nem um pouco disso, sinto dizer.
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Continuo tendo sonhos com um lugar só meu.
Fazendo planos para um extreme makeover.
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Nesse meio tempo, eu tenho que aprender a lidar com todas as novas emoções que a minha nova vida trouxe com ela.
Minha relação com a minha filha sempre foi maravilhosa (ela é maravilhosa!), uma coisa extremamente prazerosa; mas também que quebrou muitos mitos, trouxe muitas dores, responsabilidades, limites.
Uma hora, estamos as duas trocando abraçoes sem parar, rindo descontroladamente, escutando historinhas, cantando musiquinhas; na outra eu me sinto tolhida por não poder mais ir a um cinema só porque quero ir a um cinema, porque preciso descobrir alguém que possa ficar com ela por 3 horas com alguns dias de antecedência para que possa, enfim, ir ao maldito cinema.
E esses sentimentos não são relativos a ela diretamente, mas à minha nova condição de vida, que é, sim, limitada e à saudade que de vez em quando eu sinto do tempo em que eu podia ficar chateada (outro exemplo) e sumir no mundo por alguns dias numa boa. Hoje eu nem posso passar uma noite inteira fora de casa.
Ou melhor, até posso, duas vezes por mês.
Ruim?
Às vezes é sim.
Ainda mais quando eu faço tudo sozinha.
Essa é outra parada.
A maternidade está sendo uma experiência absolutamente e sufocantemente solitária.
Eu tenho ajuda (física) para ir à faculdade e sair à noite nos fins de semana.
Tirando isso, eu que carrego o grosso da coisa. E isso engloba aprender musiquinhas, brincadeirinhas, qual é a melhor papinha e também os sentimentos, os medos que ter uma criança traz. É uma puta responsabilidade.
Dá um puta medo de construir uma pessoa.
É muito solitário.
Antagônico.
Extremamente prazeroso do ponto de vista que ela é tudo de mais maravilhoso na vida, o que ilumina meu dia, me tira da cama, me faz querer ser uma pessoa melhor e chorar compulsivamente quando eu percebo alguma falha (e falhas existem, é humano), que sem ela eu não imagino mais a como seria viver.
Extremamente solitário do ponto de vista em que eu preciso crescer cada dia mais e tomar decisões adultas e deixar de ser criança.
Bom porque eu tenho algo que eu fiz e morro de amores e orgulhos e alegrias.
Ruim porque eu não tenho mais a liberdade que tinha, a irresponsabilidade que tinha.
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Aliás, cheguei à conclusão que liberdade é uma coisa que não existe.
Algo sempre vai te prender, te dar limites.
Um vício.
Um filho.
Uma fidelidade.
Um trabalho.
Uma vontade.
Liberdade não existe.
Me serve de consolo, se você quer saber.
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Ando às voltas com virar adulta de verdade.
Amadurecer no tabefe.
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O pior demarcador disso é quando você começa a lidar com questões burocráticas sozinha.
Entender como isso e aquilo funcionam, ter que pegar senha, fila, hora marcada, documentar, xerocar, autenticar, carimbar suas responsabilidades, assumir seus números...
Pra mim, a burocracia é uma ferramenta angustiante da maturidade.
Infelizmente, necessária.
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Virar gente de verdade é foda.
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Nesse processo, nesses tantos processos, que andam acontecendo a algum tempo, a vontade de escracahar a minha vida de forma escrita foi diminuindo.
A minha vida é aberta até demais.
Abro pras pessoas mais improváveis. Pras certas, pras erradas, pras que eu gosto, pras que eu não gosto, pras que gostam de mim e as que não gostam, é só perguntar que eu abro. Conto o que você quiser.
Mas escrever, documentar, não.
Comecei a não documentar por respeito a terceiros e quartos, amores, amigos, hoje existem textos que eu já escrevi mas não pretendo nunca pôr aqui.
Momentos tão lindos e tão dolorosos.
Momentos.
Pensamentos.
Desejos.
Brigas.
Amigos.
Risadas.
Choros.
Dores.
Descobertas.
Mas que eram tão íntimos que não "entraram" nesse diário.
Esse diário é público, é aberto, contém o que eu acho que as pessoas podem ler, saber, ver sem me conhecerem de verdade.
E, mesmo que me abra sem noção, eu começei a me preservar um pouco.
Da mesma forma que eu sempre preservo as coisas.
Primeiro preservando outros, depois chegando em mim.
Mas cheguei, né?
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E meu bebê está quase fazendo um ano...!
Começando a andar, falar, cheia de dentes...
Vamos combinar que a gestação e a chegada dessa nova vida me mudou pra caramba.
Mas agora Mamãe vai cuidar um pouquinho mais dela mesma.
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Mais novidades outro dia.
Pra variar, como tudo que eu escrevo, o fim chegou apressado, animado pela hora adiantada no relógio que me diz que eu só tenho mais 5 horas para dormir antes de mais um dia começar, pela coluna que dói como se e tivesse sido torcida num daqueles bagulhos que torcem aqueles parafusos e porque meu cigarro acabou.
Escrever é bom com música alta nas orelhas (o que acontece), cigarros e café (que se eu tomar agora enlouqueço de vez e adeuzinho dia de amanhã), então cabou a graça.
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Por mais que eu ande precisando voltar a escrever.
Sim, necessidade.
Para escrever merda.
Para escrever coisas que prestem (se é que isso existe).
Pensamentos.
Certezas e incertezas.
Para pôr para fora coisas que só ponho aqui.
Gastar os neurônios, o coração, a alma e extravasar um pouco.
Ter o meu momento comigo mesma.
Desengasgar...
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Hoje acabou a graça.
Até a próxima madrugada.

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