Verborragia

sábado, outubro 29, 2005

1 Ano

Pode não parecer, mas eu só fui realmente me preocupar com o parto sem si quando este já estava pra acontecer.
Durante toda a gravidez, minha preocupação era de que a Liloca estivesse bem. Crescendo bem, engordando bem, com um coraçãozinho forte, órgãos “perfeitnhos”, 10 dedos nas mãos e nos pés.
A minha responsabilidade, já nessa época, era tremenda, uma vez que a torcida do Flamengo esperava um bebê junto comigo, mas o forninho era eu e qualquer coisa que saísse errado seria minha culpa.
Besteira?
Talvez.
Talvez eu tenha deixado de curtir a gravidez tão sonhada, tão esperada e, para mim, até então tão impossível por ter ficado preocupadíssima com terceiros e quartos como fui por toda a minha vida. Mais uma vez, na hora de performar o Meu Milagre, minha preocupação foi com outras pessoas.
Gerar uma pessoa com cérebro, coração, membros, alma; na verdade é muito mais complicado psicologicamente do que eu jamais esperei que fosse; ainda mais com um batalhão realmente “exigindo” que você faça direito essa tarefa.
É uma puta pressão.

Nunca escondi de ninguém que estar grávida foi pra mim muito diferente do que eu sempre ouvi que fosse e do que eu esperava que fosse.
Eu fiquei lenta, mais gorda, mais descontrolada, mais emotiva, mais ansiosa, mais medrosa, mais sozinha. Tive muitos enjôos, muitas dores na coluna, muito, muito sono... Me senti um ser quase imprestável. Tentava não ser, mas era.
Foi ruim.
Até por existir uma questão emocional confusa na coisa, não foi nada mágico.

E o tempo foi passando, eu fui gerando, ela foi crescendo...
Eu já estava doida para ela sair...

Aí passou do tempo.
Exames mostraram que eu estava perdendo líquido, que ela estava ficando apertada lá dentro, que estava mais que na hora dela ser “saída” de lá de dentro.

Dá medo.
O parto dá muito medo.

A lógica é simples.
Se entrou, sai.
Nós (mulheres) fomos “construídas” para que bebês saiam por “ali”.

E eu estava esperando isso justamente.

Imaginava um bebê, 50 cm, cabeção, saindo por “ali”, mas também imaginava mamãe, tão pequena me saindo por “ali”, imaginava a sua mãe, a mãe do vizinho, e tomava coragem pra isso.

Imaginava que, sim, a dor deveria ser bizarra, mas um tipo de dor que passaria rapidinho, rapidinho.

Tinha medo de ter complicações.
De ser uma dessas mulheres, hoje já quase inexistentes, que morrem no parto.

Negativismo?
Não, poxa.
É um bebê saindo.
Natural?
Sem dúvida.
Mas, ainda assim dá medo e você quer sempre as duas vidas vivas.
E a gente já assistiu muitos filmes no supercine...

Aí o Seu Doutor um dia virou pra mim e disse que era melhor que nós fizéssemos uma cesariana porque não tinha porquê deixar a criança lá dentro mais tempo.
Eu, que já estava cansada, sem dilatação, preocupada e afins, achei uma maravilha.

E lá fomos nós, numa bela manhã nublada para o hospital em Laranjeiras.

Entra daqui, registra dali, vai pra lá, raspa aqui, cobre ali...

Na hora H, H mesmo, me deu um medo medonho.
Iam me cortar.
Tirar minha filha à força.

Eu, que nem tinha real noção do que ia ser virar mãe até então, ia TER que passar por isso.

No pânico, pedi ao pai da criança que me acompanhasse.

Não ia ser bonito.
Ia ser sanguinolento e sem glamour, mas eu precisava de alguém ali comigo.
Uma coisa meio “Beijo no Asfalto”.
Medo de morrer sozinha.

Porque eu senti muito medo de morrer naquela hora.
Na hora em que eu ia “criar” uma nova vida.

Não fui nada corajosa.

Entrei aos prantos.
Continuei aos prantos enquanto me amarravam na cama e me davam a maravilhosa anestesia. Depois passei mal horrores. Enquanto a equipe conversava sobre o jogo de futebol, o pai chegava, eu ficava chapada e as pessoas começavam a me cortar, eu passava mal.
E já me culpava.
Me culpava por ter chupado dois cubos de gelo durante o jejum, coisa que tinham me proibido de fazer e que eu tinha certeza de ser a razão do meu enjôo.

Daqui a pouco alguém disse:
- 8:18.
Que nem a gente vê quando alguém morre, eles dizem também na hora em que alguém nasce de fato. A hora.
E o choro.
Demorou, uns dois segundos, mas demorou.
E saiu.
Da mesma forma que o meu choro.
Os dois saíram quase juntos e sem que ninguém tivesse que mandar.

Ela chorava porque nascia.
Eu porque ela nascia, e, meu Deus, e, estava ali, viva, finalmente!

Eu perguntava se ela estava bem, perfeita, vi pesarem, vi medirem, vi porem ela em cima de mim e aquelas mãozinhas roxas na minha cara e... apaguei.

Acordaram-me aos tapas para sair da sala de cirurgia com a certeza de que eu estava bem.

Fui para o quarto e passei horas torturantes com as pessoas chegando e me dizendo que ela era a bebê mais linda do berçário, enquanto eu esperava que ela viesse me conhecer de fato.
Até então eu não tinha visto nada mais do que aquelas mãozinhas roxas.
E o sono da anestesia... E a ansiedade de ver meu bebê e saber que era de verdade e de bater o “agora fudeu”... E a dor.

Horas depois, muitas horas depois, me trouxeram ela.

Tão pequenininha que as calças caíram quando o pai foi pegar ela no colo.
Tão vermelhinha.
Tão...

Mas, desde o momento que eu a vi, que eu a peguei pela primeira vez, acabou o medo que eu tinha de bebês minúsculos. Ela era minha. Eu sabia o que fazer.

Depois tive um pós-parto do inferno.

Nunca imaginei que levantar da minha cama fosse ser tão difícil e tão doloroso.
Em alguns dias, perdia a noção das horas, das mamadas, das fraldas.

O inicio foi doloroso, cansativo, deprimente.

Foram baques e mais baques psicológicos e físicos.

Não.
Ficar grávida não foi nada do que eu imaginava.
Parir não foi nada do que imaginava.
Recomeçar a vida não foi nada agradável.

A paz ainda não veio.

Mas, nossa, sobrevivemos!

Descobri um Amor maior que qualquer Amor que eu já tinha sentido.

Indescritível.
Imensurável.
Pleno.
Meu e Dela.

Imperfeito.
Mas plenamente perfeito.
Puro.
Lindo.

Que vale tudo que eu passei.
Que passo.
Que passarei.

Hoje eu tenho uma força que não tinha antes.
Certezas.
Uma nova vida.
Novos tudos.

E ninguém, ninguém, pode estragar isso.

Posso não ter certas coisas hoje, mas tenho muita sorte, muitas bênçãos, nada falta à minha filha. Tenho muitos amigos, muitos amores.

E a vida segue.
Continua da forma mais bonita que poderia.
Da melhor maneira que eu jamais imaginaria.