Verborragia

quinta-feira, março 30, 2006

De repente a vida é subdividida.
Algumas pessoas vão amar e ser amadas, fazer coisas extraordinárias, serão verdadeiramente felizes.
Outras vão acordar, comer, defecar, andar, estudar, trabalhar, mecanicamente, sem algum sentido real para que façam tudo aquilo, exceto o fato de que precisam de oxigênio, comida e não possuem culhões para terminar com isso. São pessoas que simplesmente existem.
E tem aquelas que buscam ser verdadeiramente felizes e fazer coisas extraordinárias, que nasceram para isso, mas em algum momento se perderam de si mesmas e se vêem existindo apenas. Essas jamais vão deixar de buscar, de inventar verdades em que só elas acreditem, muitas vezes até se sentirão extraordinárias, só para se pegarem simplesmente existindo. Para de repente verem toda uma vida de livros, por exemplo, ser vendida a pouco mais que um salário mínimo. Para de repente pensarem se a existência delas realmente faz diferença na vida de qualquer outra pessoa. Para de repente pensarem se a existência delas sequer faz diferença na vida delas. Para de repente pensar quando os sonhos se tornarão realidade. Para de repente ouvir de outras pessoas que sim, tudo vai melhorar, vai se ajeitar, vai dar certo, que os sonhos não são impossíveis, que o amor existe, que elas fazem diferença e são extraordinárias. Para de repente começarem a acreditar em tudo isso de novo e tentarem de novo, num ciclo igualmente mecânico, mas cheio de esperança.
Para estas pessoas aplica-se o “enquanto há vida, há esperança”.
E, depois de um tempo de luto, lá vão elas acreditar em tudo de novo, as otárias.
Algumas delas, ao longo do caminho, porém, vão deixando de acreditar em alguns sonhos, aposentando expectativas, selecionando o que seria mais provável de acontecer, o que vai machucar e não vale mais a pena.
Algumas pessoas são reais.
Talvez eu ainda seja um duende.