O Ano em que sobrevivemos ao Natal
Primeiro natal da criança.
Adoro Natal.
Compra presente, reúne família, monta árvore, compra filme pra máquina, bota o vestidinho, blablabla.
Na hora "H", meu tio adoeceu.
E agora?
E agora?
Aí resolveu chover.
Torrencialmente.
Droga, vou ter que arrumar outra roupa.
Nada me cabe mais!
E a criança com cólica.
Num espírito bem natalino.
E agora?
Chama o taxi.
Cobre a criança com uma manta.
Bota casaco, gorro.
Tá tudo aí?
Vamos ver.
Sacola da criança.
Sacola de presentes.
Sacola com comidas.
Muitas grandes sacolas.
A criança dorme nos meus braços.
Pega taxi.
Desce na outra casa.
Apresenta a criança à bisavó.
Ela não tem a menor idéia do que se trata.
Nem olha pra criança.
Tira foto com todas as gerações reunidas.
Um bando de mulher feliz.
Chama taxi.
40 minutos de espera e a criança continua dormindo no colo.
Meus braços ficam dormentes.
Estou morta de fome.
Meus pés doem.
Tô começando a implicar com o Natal.
Mais uma viagem.
Trezentas sacolas.
Transferência de festa.
3 lances de escada.
Arruma um lugar pro bebê conforto pelo amor de Deus.
Não sinto mais o braço.
Morrendo de fome.
Só mais meia hora.
A criança dorme.
Como como se fosse a última refeição.
Discussões familiares.
Vou fumar um cigarro.
Queria uma cerveja.
Na verdade, uma caixa de cervejas.
O que será que as outras pessoas estão fazendo?
Presentes!
Compensação material excelente por todo o resto.
A criança acorda.
Cocô.
Peito.
Fotos.
E mais fotos.
Exausta.
Odeio o Natal.
Quero a minha cama.
Uma e tal da manhã.
Parei de funcionar.
Chama o taxi.
Junta tudo.
Desce tudo.
A criança dorme de novo.
Medo desse taxista.
Por favor meu Deus, não deixa ele bater!
Não bateu.
Sobe tudo.
Vou botar ela no berço de roupa e tudo.
Exausta.
Chorosa.
Carente.
Sobrevivente do Natal.

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