Morrendo de Pastel
Já viu gordo com estômago sensível?
Viu agora.
Mas deixa eu explicar...
A alguns anos atrás houve uma noite. Uma noite daquelas que eu amo, que dura toda uma noite, com papo e cerveja no BotecoTaco, aquele bagulho pé de chinelo chique ali no Humaitá aonde as pessoas pé de chinelo chiques resolvem dar pinta quando pretendem fingir que jogam sinuca - coisa esta que eu nem nunca me aventurei, prefiro "guardar a mesa", quando muito jogava naquelas maquininhas fantásticas de pinball que ainda existiam lá e hoje são tão raras.
Acontece que naquela noite, além da sinuca, do pinball, dos papos e das cervejas, o nível alcóolico deve ter ultrapassado todos os limites do bom senso e nós resolvemos pedir uma porção de pastéis.
Imagina a coragem do povo: pastel feito no óleo que deveria estar na frigideira desde de tarde quase de manhã.
Eu sobrevivi a pelo menos dois anos almoçando x-tudos no camelódromo, de forma que era uma das mais animadas, felizes e dedicadas à tarefa.
E, de fato, o negócio estava com um tempero todo especial, se bem me lembro.
Enfim, a noite terminou, voltamos pra casa, dormimos e eu acordei mal.
Primeiro eu achei que era só uma amiga ressaca, mas as cólicas furiosas e os arrotos sabor óleo de cozinha que saíam do meu ser acabaram por me provar o contrário.
Naquela época, mamãe estava internada e eu não pude ir ao hospital naquele dia porque acabei não me aguentando e tendo que ir pro hospital eu. A coisa foi tão furiosa que tive que recrutar meu namorado (é, é história "dessa época" também) para fazer escolta de tão detonada que eu estava, coitado.
Passei uma tarde inteira tomando Dramin na veia, com cólicas furiosas e aquele gosto de óleo na boca.
Como pode-se ver foi uma experiência tão excruciante e marcante na minha existência que eu me lembro perfeitamente de todos os detalhes, apesar de ser completamente incapaz de me lembrar o que vestia ontem.
Mas eu esqueço de vez em quando, que nem aqueles camaradas que são alérgicos à camarão, sabe?
Desde então, apesar de adorar, tenho coisas com pastéis e mais coisas ainda com óleo de cozinha. O pânico de repetir a experiência é tão grande que eu até aprendi a fazer feijão por causa de óleo de cozinha, mas isso é outra história...
Acontece que hoje eu resolvi ceder a um desejo que eu andava sentindo de comer... um pastel.
Acontece que estou eu aqui, de novo, com aquele gosto na boca, cheia de remédio na lata pra ver se evito outra excursão à Policlínica, pensando seriamente que talvez eu morra de pastel, olha só que coisa mais deselegante...!
- Morreu de quê, coitada?
- Pastel.
Não dá...
Mas isso também é outra história...
E o fim de Páscoa pra mim foi esse.
Ódio dessa coisa de Páscoa, viu?
Porque, sim, eu consegui ovos de Páscoa e exatamente como eu também já previa, estou aqui morta de raiva de todas aquelas calorias.
Para a Licas o fim de Páscoa não foi lá muito bom, não.
Hoje a bichinha teve uma dor de barriga tão sinistra que foi a primeira vez que a agendinha do colégio veio com quadradinhos extras na seção coco e logo que levantou me lembrou dos tempos de pequena quando, às vezes, saíam coisas de dentro da criança que faziam a gente ficar sem saber por onde segurava, se segurava, se jogava fora, essas coisas...
Foi o Dia do Luftal nessa casa...
E é isso aí mesmo.
Hoje eu só vou falar de comida de novo.

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