Feriadão - de novo.
Dia das crianças.
Feriado criado pelo Capitalismo para alavancar a venda de brinquedos no mês de outubro, que até outro dia mesmo não possuía, no Brasil, nenhum outro significado socio-econômico significativo, uma vez que nem toda a população brasileira faz romarias ou oferendas a santos e o halloween, convenhamos, é só uma desculpa de adolescentes ou pessoas que esqueceram que essa fase já passou para brincar com caveirinhas e teias de aranha e pagar mico de se vestir de bruxa e beijar uns sapos por aí e ir a algumas festas.
Mesmo assim, quem é que não compra um presente para a sua criança (ou a criança da família)? Eu até conheço quem, mas isso não vem ao caso.
Mesmo assim, quem não se aproveita do feriadão popular para fazer algum programa especial com a sua criança (até porque, se a programação não existir a sociedade vai pegar no seu pé último nível)?
Quem não planeja um dia perfeito, com programas perfeitos e risos perfeitos e felicidade perfeita?
Eu comprei presentes para a minha criança.
Sou o tipo de mãe que precisa se controlar muito nessas ocasiões comerciais e se lembrar de que, sim, a criança irá ganhar outros presentes e eu não preciso ir à falência num único dia comprando para ela tudo que eu gostaria de ganhar.
Então fui firme.
Comprei um presente.
Médio.
Eu planejei abrir o jornal e dar de cara com uma extensa programação ao redor da cidade anunciada. Planejei poder escolher entre uma dezena de programas infantis e culturais ou infanto-culturais e fazer um extensivo tour pela cidade com a minha felicíssima bebê.
Uma coisa assim bem Flaming Lips.
O meu presente foi quase um fiasco.
Imaginei que ela ficaria exultante com um fogãozinho de brinquedo e panelinhas, uma vez que eu passo muito tempo da minha existência na cozinha e ela imita tudo que eu faço - psicologia isso, não é invenção minha.
Ela olhou, fez um café, cozinhou o pirulito da embalagem e pronto. Foi ver desenho.
A boneca da minha tia fez muito mais sucesso...
A programação no jornal se resumia a show do Latino para as crianças na Quinta da Boa Vista. Vem cá, Latino pra crianças? Hein? Eu sei que o cara tem um batalhão de filhos, mas daí a ser atração infantil, sei não...
Resolvi ir a um shopping mesmo. Programa que eu já abomino normamelmente, mas eu tenho que reconhecer que shoppings têm parquinhos, né?
Nisso, servi o almoço perfeito.
Perfeitamente colorido, balanceado e cheio de nutrientes - como o manual diz que deve ser.
Ela olhou, cheirou, futucou, comeu uns 3 grãos de arroz e encerrou sua participação no almoço perfeito.
Aliás, no Dia Perfeito, porque a essa altura, sei lá porque cargas d'água, baixou um mau humor do inferno no bebê. Ela descansou e o mau humor lá, cagando meu dia perfeito.
Aí eu fui ficando de mau humor, claro.
Aí minha mãe resolveu ficar de mau humor.
O dia estava uma desgraça de feio.
Aí fomos as três de mau humor pra a casa da minha avó resolver coisas de mudança.
No fim do dia, arrasadas, esse foi o dia perfeito. Entre caras feias e caixotes.
Nada como o programado.
Desisti até de ir pra rua.
Em compensação, no dia seguinte, o bom humor voltou a reinar no lar.
Acordamos bem e eu fui levar a Olívia para tirar a foto das sete carinhas (pra quem não sabe é um quadro com sete expressões do bebê), que eu nem gosto muito, não. Acho meio freak. Talvez por isso eu goste um pouco. Mas, enfim, foi presente.
Ela, que não é nada vaidosa, nem exibida (imagina!), adorou tirar as fotos, né? Não queria ir embora!
Saberemos o resultado ao longo da semana.
Aí eu não resisti e fui até o MacDonald's comprar um Flurby pra ela.
Antes de mais nada: não. Eu não tenho o hábito, não apóio crianças pequenas irem ao Império da Gordura e do Vício, não levo ela lá.
Acontece que eu estava louca alucinada para comprar um bichinho daqueles.
Confesso.
E foi melhor do que o pensado, porque ela a-mou o bichinho - que ela chama de "coruja".
Depois de mais algumas tarefas por Copacabana, voltamos ao lar.
Supresa!
Minha sala tinha sumido.
No meu lugar havia um corredor com caixas por todos os lados!
Existiam 45 caixas pela casa esperando para serem arrumadas e organizadas.
Um número bem grande de caixas depois, fomos nós nos arrumar.
Festa de 200 anos de um daqueles familiares que a gente só encontra uma vez a cada cinco ou dez anos, mas que eu concordo em ir porque meu pai fica bêbado de orgulho. Eu prometi levar a Licas e dar carona para a minha irmã em prol da minha sanidade. Apesar dos pesares, ando preferindo ficar longe de agitos por algum tempo - pelo menos até semana que vem.
E a festa começou meio mais ou menos.
Muita comida. Muita bebida. Menos animação.
Olívia teve um chilique qualquer que não queria sair do meu colo por nada no mundo. Era no colo e abraçada.
Mas assim como o chilique veio, foi.
De repente, ela animou e resolveu ir dançar.
Adentrou a pista de dança e de lá ficou entrando e saindo até o final da festa!
Eu e meu pai quase à beira da morte porque, afinal de contas, nós não somos nem esguios, nem temos mais dois anos, e la lá:
-Vamo danxá!
A coisa foi tão séria que eu tive que levar ela pra ver os caras desmontando o equipamento de som porque ela ainda queria danxá!
Nunca imaginei que começasse a ir pra night tão cedo com a minha filha...!
E, olha, eu não trocava ter passado a noite dançando com ela por nada!
Ontem foi nosso dia perfeito, viu?
Não foi no dia programado, mas no seguinte, deu um caldo.
Hoje, muito cansaço.
Filminhos sanguinolentos pra mim, a vigésima exibição de "Madagascar" pra ela, Bruce Willis pra mamãe.
Tirando a espinha de 6 metros que está pulsando no meu queixo e quase falando e andando sozinha (o quê, aliás, é mais um motivo que eu tenho para não querer que o Mundo veja a minha cara) e o coração que insite em pesar e chorar, foi um dia típico (em que eu cozinhei, lavei e criei) atípico com amigos ligando para me chamar para sair apesar do celular desligado deliberadamente.
Tá tudo bem.
Triste.
Cheio de saudades.
Cheio de necessidades.
Mas ainda assim, feliz.
Calmo.
Quieto.
Ganhei 20 livros novos na cabeceira da cama para ler e passar meu tempo.
Saíram alguns filmes novos.
Eu tenho 200 canais de tv.
Um computador.
Uma filha.
Tá tudo bem...
Vai ficar tudo bem.
Sempre fica.

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