Verborragia

domingo, novembro 27, 2005

Porque eu tenho problemas pessoais com o Claro que é Rock

Por Renata Roxo
Da Universidade da Terceira Idade

Faz alguns anos um sujeito aí fez um festival de rock no mesmo local aonde vai acontecer este.
Você não se lembra porque devia estar usando fraldas, mas o tal festival se chamava Rock In Rio e, naquela época, veja só, acontecia de fato no Rio de Janeiro, não em Portugal.
Naquela época, eu achava que um programa desse porte era (ou deveria ser) muito divertidinho. Eram vários dias de “festa” e vários artistas internacionais viriam tocar. Brasileiro, ainda por cima carioca, acha que tudo que é artista estrangeiro deve fazer show bom então não pode perder, mesmo que ele nunca tenha ouvido falar no sujeito que está lá no palco, e vai em peso. O Rock In Rio que acontecia de fato no Rio era um grande Evento!
O primeiro passo foi escolher quem eu gostaria de ver tocar.
E isso foi facílimo! Para minha alegria, juntaram na mesma noite o Beck, o R.E.M., os Foo Fighters, enfim, bandas que você até já deve ter ouvido falar, mas que, naquela época, eram realmente um presente de se ver ao vivo.
O segundo passo foi montar a o figurino.
Porque a coisa começava cedo. Os portões abriam por volta de duas horas da tarde e o último show estava programado para uma e tal da manhã. Tal maratona demandava um figurino à altura. Tênis confortável. Shorts (e eu de-tes-to usar shorts). Camiseta fresca por causa do calor. Casaco na mochila. Mochila com biscoitinhos, casaco e água.
Terceiro passo: combinar de se movimentar em bando.
Era preciso ter certeza de que seria marcado um ponto de encontro, que todos estavam munidos de cartões telefônicos, que todos andariam juntos, etc,etc,etc.
E aí, montar a Operação de Guerra.
Sim, ir ao Festival era quase como ir à guerra!
E sem fuzis!
(Pelo menos no que diz respeito a nós, espectadores do Bem.)
Como o local escolhido era longe, muito longe, longe mesmo, acabaram disponibilizando uma série de ônibus que nos levavam até um terminal rodoviário X; de lá deveríamos pegar outro ônibus e depois andar mais alguns “metros” até descobrir a entrada da “Cidade do Rock”, como era chamado o lugar.
Descobrir o lugar enquanto andávamos era a parte mais fácil, uma vez que, às duas da tarde já haviam pessoas vagando bêbadas, acampadas e curtindo um woodstock (nesse quem foi foi sua avó, pergunte a ela que se você tiver sorte ela pode até lembrar) que nós, obviamente não estávamos curtindo (desculpe as gírias... curtindo quer dizer usufruindo.).
Enfim, uma turba de pessoas em filas sendo revistadas loucamente, quilos de correntes e anéis e garrafas d´água sendo confiscadas...
Sim, nos confiscaram a água. Fomos obrigados a gastar algo em torno de cinco reais por uma micro-garrafinha com 200ml do tão rico líquido, o que, se não nos fez refletir sobre a preciosidade de tal, quase mandou uma boa turma para o hospital com desidratação.
E lá chegamos.
No início éramos 8, limpinhos, com uma energia aparentemente inesgotável, sem água e sob um sol de rachar qualquer camelinho.
Os shows começaram.
Tão baixinho que nós ficamos achando que era só aquele sonsinho ambiente pré-show. O sol foi sumindo e as pessoas também. Cada um que ia dar uma voltinha para reconhecimento de campo não voltava nunca mais. Pessoas apareciam e desapareciam com uma enorme facilidade. Foi batendo o cansaço e nos vimos obrigados a sentar no chão, um misto de areia com grama e lama sensacional e extremamente desconfortável.
A esta altura, só havia sobrado eu, meu namorado (vejam bem quanto tempo faz: eu ainda namorava!) e um outro casal de amigos que hoje nem mora mais no Brasil. Meu short rasgou, minha camiseta que era branca já estava cinza, meu tênis furou... E ainda existia fome e sede. Foi tudo acontecendo...
Aí foi quando eu realizei que pessoas de baixa estatura não são bem vindas em festivais de rock. Murphy, nosso amigão, vai sempre se certificar de aquela pessoa com mais de 1,80m (sim, porque na minha época as pessoas altas tinham mais de 1,80m, essa coisa de toddynho aditivado que deixa as pessoas com mais de 1,90m é coisa da sua época) resolva assistir ao que se passa ao longe estacionado bem na sua frente – quando este indivíduo não carrega nos ombros a sua namorada totalizando mais 3m de obstrução visual. As pessoas baixas já tem que se contentar em imaginar que aquele playmobil (era um bonequinho da minha época) lá na frente seja quem ele imagina que pagou para ver de fato e são obrigadas a se contentar com os telões – isso sim um aparato moderno e tanto! – sem alguém na frente, imagine com o King Kong (um filme muito, muito antigo da época da minha mãe em que o gorila tinha 3m de altura)...
Ou seja, pessoas baixas não conseguem ver nada de verdade a não ser que elas sejam guerreiras o suficiente para abrir caminho em meio ao povaréu e consigam ficar bem espremidinhas entre vários gorilões malvados sem sequer poder respirar direito e sendo literalmente massacradas.
Na época do dito festival eu já não fazia mais parte deste grupo.
Mas foi neste dito festival que eu descobri que ir ao festival era mentir para mim mesma, uma vez que eu pagava como todas as outras pessoas e não via nada realmente, que deveria aceitar que a minha presença era só para poder dizer que havia estado lá enquanto poderia estar em casa assistindo tudo confortavelmente pela tv a cabo.
Sei que a dita maratona só foi terminar por volta de 3 da manhã.
Fomos bancar os espertinhos e sair antes do show acabar de fato para tentar não pegar ônibus muito cheios e descobrimos que metade do lugar tinha tido a mesmíssima idéia, sendo obrigados a andar alguns quilômetros a pé perseguindo e implorando aos ônibus ainda vazios (Qualquer um. O importante era sair dali, não para que lugar.) para que abrissem as portas peloamordedeus.
Quando chegamos finalmente em casa, depois de pegar mais um ônibus e um táxi, parecia que um caminhão havia me atropelado e passado várias vezes por cima do meu corpinho de baleia. Passei uns dois dias sem poder andar direito.
Valeu a pena?
Claro. Foi uma aventura. Algo que me deu histórias para escrever 4 ao invés de duas páginas de texto, mas também me rendeu a convicção de que eu jamais faria algo semelhante na vida.
Convicção esta devidamente posta à terra uma vez que foi anunciada a escalação das bandas que vão tocar hoje. Meu ingresso está aqui guardadinho tem mais de um mês. Era uma figuração que eu precisava fazer de qualquer jeito! Só para a ver aqueles micro-bonequinhos de longe e poder contar aos meus netos que vovó estava lá.
Mas temo pela minha coluna, pelos meus joelhos, pela falta de conforto (eu hoje sou uma mulher muito pró-conforto em todas as situações da vida), pela falta de comida, água, cigarros, banheiros, telefones, almofadas,e, porque não lembrar deles, os gorilões de 3m de altura. Um conjunto que pode arruinar o meu bom humor corrente. E bom humor é mais do que necessário quando se vai enfrentar uma maratona de, o que, 14 horas...?
Estarei com bons amigos, não pegarei ônibus, levarei uma mochila com provisões, comprei sapatos confortáveis, não saí ontem à noite para poupar minhas forças. Enfim, operação de guerra.
Mas baseado no último festival, tem tudo para que eu implique.
Não tem?
E eu acho ótimo implicar antes de ir, porque se acontecer de ser sensacional eu vou sair no lucro.
Mesmo indo para a maior furada do ano.