A Renata tá bem?
A Renata tá bem, sim.
Não muito satisfeita, é verdade. A História da Minha Vida. Curtindo coração partido. Vendo que tudo que eu ouvia, mais uma vez era historinha em todos os sentidos e direções. Chegando à conclusão de que existe um certo masoquismo de minha parte envolvido, que a minha terapeuta tinha razão, sim. Me acertando comigo mesma para enfiar na cabeça de que vai ser muito mais construtivo manter o foco em coisas mais demoradas, enfadonhas e essenciais à vida alheia e fazer delas meu motivo de vida.
Apesar de todo meu Complexo de Peter Pan latente, é bom - e muito triste, nada bucólico - descobrir que eu já tenho idade e experiência mais que o suficientes para saber que mais esta vai passar, que daqui a pouco talvez eu nem me lembre do nó na boca do estômago, que eu sobrevivo. Com classe. Afinal de contas, a essa altura também eu sou quase uma especialista no assunto.
Mas de resto tá tudo indo.
Faculdade tá bacana, adorando coleguinhas, (aqueles que eu tinha tanto medo, veja só), professores e todo o resto.
Meus amigos andam por perto e me dando beijos, abraços, risadas e afagos, o que faz de mim uma garota muito, muito sortuda.
Eu tenho saúde, graças a Deus.
Uma filha linda, graças a Deus.
Neurônios, dez vezes graças a Deus.
Tô numa fase questionadora de personas, escolhas, pessoas, vida e afins.
Leio meu horóscopo, meus livros.
Uma fase onde fica engraçadinho até pensar em como clichês podem ser facilmente aplicados, sim, e em como eles podem fazer um super sentido quando explicações psicológicas e filosóficas já deram o que tinham que dar. Filosofe, interprete, gaste horas da sua vida justificando sua dor, sua burrice, sua má sorte ou mesmo sua sorte, ria de si mesmo e solte um clichê. Acabei de dar a receita para uma discussão bem sucedida consigo mesmo ou até com um outro.
Definitvamente, porém, preciso mais de mim mesma que de um outro no momento.
Talvez eu arrume um outro do outro lado do Atlântico.
Isso, sim, ia ser supimpa.
Enfim...
E quinze anos depois (ai, que bandeira!) eu tenho que reler pela enésima vez "O apanhador no campo de centeio". Não leu? Então antes de considerar a possibilidade de virar um psicopata, leia. É um pré-requisito.
Preciso fazer um trabalho sobre o livro. De novo. Porque, aqui pelas minhas contas, eu já devo feito pelo menos uns dois ou três (psicopata escolada em potencial, hein...).
Numa boa, é um livro querido. Xodó da mamãe. Holden Caufield foi uma das minhas paixões de adolescência - minha e de muita garotinha de 15 anos, garanto.
O que é curioso, é abrir o livro e dar com meu nome escrito à caneta - coisa que não faço mais, juro - e o ano da primeira leitura. Parar e perceber quanto tempo se passou, imaginar como será a leitura desta vez, em que existe toda uma nova pré-interpretação do livro, um novo nível de pensamento, uma Renata tão diferente.
Tão diferente e tão igual. Continuo meio adolescente, o Holden ainda me fascina - nós sofremos do mesmo complexo, afinal de contas - e, ao mesmo tempo, quem vai ler o livro desta vez é uma mulher. Já na assinatura na capa do livro eu percebo mudanças. Mudanças de grafia (hoje a minha letra é muito mais bonita, mas na ápoca eu achava ela uma coisinha) e mudanças de comportamento; a mulher aqui descobriu o poder das palavras e deixou de escrever seu nome completo por extenso há muitos anos.
E já comecei a leitura. Com outros olhos. Bem devagar. Saboreando cada pedacinho para saber aproveitar bem, guardar bem esta nova impressão.
Livros têm isso.
Leia um com 15 anos, releia 15 depois.
Você vai se espantar.
Vai viver coisas completamente diferentes, descobrir novos ângulos.
Hoje eu tenho medo de contos de fadas, por exemplo.
Bom, nem tanto medo, mas enxergo uma crueldade latente neles que jamais enxergaria há dez anos atrás.
E falta pouco para as férias.
Pouco mais um mês.
Ainda preciso estudar muito, e, desta vez, estou muito na dúvida se gostaria de férias. Ao mesmo tempo que eu gosto muito, muito de tempo ocioso, estou receosa da vinda dele. Agora eu gosto muito porque é artigo de luxo, mas dois meses inteirinhos dele me dão mais medo que as baratas cruéis que andam me desafiando por aí - o tempo ocioso eu não posso afogar em Rodox.
Mas uma coisa de cada vez.
Foco.
Primeiro preciso estudar mais, terminar tudo que preciso terminar direito.
Depois a gente pensa o que faz com o ócio.
Tenho muito a fazer.
Todos os dias corro, ando, leio, batalho por essas coisas.
São coisas demoradas, que vão demorar a chegar.
É quase como plantar uma macieira para colher maçãs; a árvore tem que crescer primeiro.
Para uma pessoa ansiosa é como ser presa em um calabouço e ser torturada por horas a fio por especialistas no assunto, praticamente.
Mas, já que não existe outro jeito, a gente brinca disso mesmo não gostando.
Mais uma vez, o que vier ao longo do caminho, que não estiver nos planos, vai ser lucro. A diferença está no fato de que desta vez, pelo menos enquanto eu estou "durona", vou me convencer de que não só vai ser lucro como deve ser lucro. De outra forma, não me interessa.
Vou tentar enterrar um tempo a minha Teoria do King Kong.
E eu saí, paseei, vi shows, li livros... Neste tempo fora, levei uma vida normal e felizinha (...), agora me recolho um pouco.
Nem que seja por duas semaninhas.
Nem que seja para escrever.
Para ler.
Meditar.
Estudar.
Fingir de novo que eu sou low profile.
Muitas historinhas deste meio tempo, pena que eu não vou contar.
Às vezes é bom ter coisas que as outras pessoas não saibam sem a sua licença...
Chega disso por hoje.
Meu edredom me chama de volta à cama.

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