Nunca serei Proust
Puta que pariu.
Isso resume tudo.
A trava mental a qual eu fui acometida persiste.
E isso seria uma dádiva – acredito piamente que até uma pessoa genial precisa de travas mentais de vez em vez para poder se renovar - se eu não estivesse precisando tanto pensar ainda.
Em breve começam as férias, mas eu ainda tenho provas a fazer e trabalhos banais (estes) a escrever.
Em breve começam as férias.
Continuo em pânico ante a possibilidade de passar os próximos dois ou três meses em estado ocioso.
Quero trabalhar.
Preciso de dinheiro como qualquer mortal que não more embaixo de uma ponte e não se alimente de prana.
Quero viajar.
Sumir do Rio de Janeiro.
Mas, para isso, também preciso de dinheiro.
Todo ano é a mesma novela.
Diagnosticada e provada.
Depressão sazonal.
Como é sazonal, passa.
Todo os anos.
Mas o Natal vem chegando e com ele meu humor vai embora no ar.
É difícil de explicar como algo pode aniquilar qualquer traço de... de qualquer coisa; ainda mais porque eu monto árvores, compro presentes, faço festas. Simplesmente tem alguma coisa no ar, nas luzes, nas pessoas, que me irrita brutalmente nessa época do ano.
Não só me irrita como potencializa qualquer problema que eu já tenha e faz com que todo o resto vire um problema também.
Por exemplo, eu me considero uma mulher bastante baratinha em termos de manutenção e passei a conviver relativamente bem – me rendi ao conformismo, por assim dizer – com minhas limitações financeiras; de repente, me deu uma necessidade de dinheiro (essa coisa escrota) que eu não tenho normalmente e que eu não posso resolver, e isso me deixou furiosa. Detesto sentir e ter esta necessidade. Uma necessidade além. E, ainda por cima, por causa de algo tão... Argh!
As pessoas e sua necessidade de engarrafar minhas calçadas, os shoppings e a minha vida, de uma forma geral, começam a me dar uma fobia de existir absurda.
E meus amigos não entendem mesmo quando eu digo que esta cidade cheia, suja, violenta e com piolhos não serve mais para mim, que eu só preciso de livros (que hoje, graças a Deus, já podem ser pedidos na internet), filmes e cerveja nos finais de semana (filha é uma coisa subentendida) para ser feliz.
Não sei se quero mais amor.
Ainda estou amargando, muito a contra gosto, a última dor de cotovelo, a última decepção, não dá pra explicar. Dói, eu sinto falta, dói, mesmo sabendo de tudo, mesmo tocando a vida para frente. Ainda estou – novamente – na fase do amor nunca mais, muito obrigada. Não quero nada disso de novo. E estou me convencendo aos poucos disso com argumentos, em sua maioria, fracos, porém prazerosos.
Começo a achar fácil e ideal ficar só.
Permanecer só.
Até porque, tirando três ou quatro, as pessoas andam me irritando.
Quero tanta coisa...!
Auto-exílio e auto-satisfação caminhando juntos.
Nessa época, foi embutido em nossas mentes o pensar sobre o ano que termina, tentar resolver o que der antes que termine, avaliar, pesar, conseguir; e a passagem do ano é só a passagem do ano - ensinaram pra gente que acabava, mas não acaba. No dia 02 de Janeiro vai estar tudo do mesmo jeito, com as mesmas cores, os mesmos gostos, mas fizeram você estourar sua auto-estima (se é que ela ainda existe) e resgatar toda a sua boa vontade nos homens de forma ostensiva e dolorosa durante o período de mais de um mês de vida.
Eu caio nessa armadilha.
Estou aqui há quase um mês esperando esse raio de ano do inferno acabar, esse raio de dia passar – agora esperando (já) o raio das férias terminarem para que o próximo ano possa começar de fato.
O que vai acontecer longe vai ficar longe e, como eu nem sei vai acontecer mesmo...
Não consigo voltar pro raio da minha dieta, tenho milhões de coisas para ler, milhões de coisas para pagar, milhões para arrumar, quero produzir e trabalhar e me cobro tempo – o tempo – que tanto me falta, que eu tanto quero, que tanto corre, que tanto me assombra. A falta dele me exaure, o excesso me assusta.
Morro de pressa, de vontades, de questões...
A compra da paz é difícil, trabalhosa.
Nessa época, artigo de luxo – impossível.
Nessa época, eu fico impossível. Em alguns dias nem eu me agüento.
Mas fico impossível.
Atrás do possível.
Mesmo estando muito, muito, muito cansada.
Sentando e repetindo meu tão amado e companheiro “puta que pariu”.
Ainda assim, existem sempre coisas boas.
Minha filha - minha maior companheira e meu maior tesouro.
Meus amigos – tão amados e pacientes.

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